Região Celeiro manifesta-se favorável ao projeto de crédito emergencial à agricultura familiar

Mais uma audiência popular da Frente Parlamentar em Defesa do Crédito Emergencial para a Agricultura Familiar foi realizada na noite desta sexta-feira (02), agora na região Celeiro. A atividade que está sendo realizada em todas as regiões do estado tem objetivo de divulgar, dialogar e mobilizar o setor para sensibilizar o governo do Estado, no sentido de agilizar a aprovação do Projeto de Lei 115/2021, de Crédito Emergencial para Agricultura Familiar. O setor enfrenta prejuízos diante dos problemas causados pela estiagem e crise da pandemia.

O coordenador da Frente criada na Assembleia Legislativa, deputado Edegar Pretto (PT), afirmou que a corrida virtual pelo Estado é “para produzir um grande movimento de baixo para cima” e ressaltou ainda que já afirmou à atual gestão do RS “para não se preocupar com o protagonismo da bancada do PT”. “Nós somos uma bancada de oposição, mas com o compromisso de apontar caminhos e saídas para a crise”. Para ele, “o governo não pode virar as costas para toda uma cadeia produtiva responsável por 27% do PIB de nosso estado. “Para as pessoas compreenderem, o total deste PIB é R$ 127 bilhões, e infelizmente nos últimos anos, houve a diminuição da participação do Estado em ajuda para este setor. A estiagem que estamos sofrendo desde o ano passado registrou até agora 394 municípios em situação de emergência, e pela primeira vez tivemos a ausência quase completa do Governo do Estado”.

O deputado Jeferson Fernandes afirmou que o PL 115/2021, que tramita no parlamento gaúcho, é estratégico para a região Celeiro. “Esse projeto é generoso, e vai na contra o que Eduardo Leite e Bolsonaro têm feito. Eles destruíram a Secretaria de Desenvolvimento Rural exatamente para não ter compromisso com o campo” afirmou.

Representando as entidades parceiras do projeto – FETRAF/RS, MST, MPA, UNICAFES, COCEARGS -, o presidente da Fetraf/RS, Douglas Cenci, afirmou que “estamos vivendo um dos momentos mais difíceis da história do nosso país, e no RS não é diferente”. “A crise econômica, a pandemia, as várias estiagens nos colocam numa situação de muita dificuldade. Há pouco investimento ou quase nada na agricultura familiar, o que demonstra que não somos prioridade”. Porém, ele ressalta a importância do projeto afirmando que “é uma proposta viável, que tem o intuito de fortalecer a permanência dos agricultores no campo, olhar para a sucessão da agricultura familiar, e garantir que a gente possa continuar produzindo alimentos, fazendo com que cheguem à mesa dos milhares de gaúchos e brasileiros que passam fome e enfrentam dificuldades”.

O líder da bancada do PT na Câmara Federal, deputado Elvino Bohn Gass, lembrou de como era o diálogo com os governos Lula e Dilma. “Tínhamos programas de crédito fundiário, editais para a agroecologia, compras públicas. Todos os anos comemorávamos o plano safra, e agora ninguém mais fala. E não falam porque a marca do plano safra deste ano foi o aumento dos juros, num momento em que a crise dos alimentos aumenta e as pessoas não têm mais condições de comprar comida”.

Entidades e lideranças locais se manifestam:
Luis Carlos Balestrin, Prefeito de Braga e Presidente da Amuceleiro: nós criamos um grupo dos secretários de agricultura da nossa região para debatermos a respeito da agricultura familiar, em virtude que nós não estamos vendo a devida importância que deve ser dado pelo governo nessa área que é tão sensível, tão importante para o nosso pequeno agricultor. Estamos discutindo alternativas e queremos propor projetos, programas para o governo do Estado e vamos precisar muito dos e das parlamentares para darmos sequência a esses projetos.

Fabiane Lange, agricultora familiar de Tiradentes do Sul: sou agricultora e produtora de leite. É muito frustrante você fazer o seu trabalho diário e chegar ao final do mês para fazer o pagamento e perceber que as despesas são muito maiores do que aquilo que você conseguiu gerar de renda. É um sentimento que nos perturba muito, porque a gente não tem clareza e nem certeza do que vai acontecer com os nossos filhos daqui para frente. Não se tem essa garantia de que realmente vou poder incentivá-los, poder dizer a eles “vamos ficar na lavoura, vamos trabalhar com uma agricultura diferenciada, vamos se manter por aqui”, porque é insustentável hoje educá-los, criá-los e mantê-los dentro da propriedade.

Valdemar Scalvi, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alpestre: estamos vivendo um trauma na agricultura familiar. Só se fala dos grandes negócios das grandes fortunas, mas os relatos deixam muito claro a situação de como está de fato vivendo a agricultura familiar no Rio Grande do Sul. Perdemos o que tínhamos no passado. Não temos projetos dignos, não temos inclusão social e não temos assistência técnica. Nós estamos perdendo, em nível nacional, todas as questões da Conab. Perdemos o MDA, e perdemos recursos para produzir comida, ou quando se tem recursos, são com altos juros. Estamos fora, praticamente, do projeto dos governos federal e estadual.

Charlei Matelli, Secretário de Agricultura de Barra do Guarita: nossa preocupação de fato é que o olhar deste governo não é para a agricultura familiar, é para o agro, o agro é pop, não é pra nós. Saudamos com entusiasmo os deputados que trazem uma pauta que é tão necessária neste momento, pela manutenção da agricultura familiar. Agradecemos, não é momento de esmorecer.

Márcio da Silva, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rodeio Bonito: no governo Tarso Genro nós tivemos o plano camponês, um programa que foi um marco no Estado e nos governos seguintes foi abandonado. Precisamos fazer o debate com vereadores, com prefeitos, em todos os municípios e chamar os agricultores a fazerem parte deste processo, e exigir do Governo do Estado apresente soluções contra estiagem que começou lá em 2019 ainda. A agricultura familiar está fora da política dos governos do estado e federal. Só no município de Rodeio Bonito já são mais de R$ 36 milhões em perdas para o setor. É um recurso que o agricultor deixa de gastar no comércio, que fica de fora da cadeia econômica do município e do estado.

Silvano Klassen, presidente da Cresol: O projeto é um empréstimo. Já é um início, mas precisamos ir além. Estamos numa crise de identidade dos nossos agricultores, que não conseguem mais identificar se se encontram na agricultura familiar, se se encontram no agro. Então precisamos buscar essa identidade de volta. Com certeza é importante produzir soja, é importante a produção de grãos, mas os nossos governos não estão se preocupando com a produção de alimentos para sustentar a nossa nação. Então precisamos dar um passo importante para esse segmento, pensando no desenvolvimento dos pequenos municípios, das pequenas comunidades e da soberania alimentar do nosso país.
 
A audiência pública popular foi coordenada pela dirigente da Fetraf, Cleonice Back, e pelo dirigente do MPA, Marcos Joni.